22 junho, 2007

Simbolismos

Huambo, 14 de Junho de 2007 - 14h30
O sinal de estacionamento proibido representa a proibição imposta por mim, em estacionar numa certa empresa. Entretanto como não é um sinal pacífico, acabou por levar um tiro.



Huambo, 18 de Junho de 2007 - 08h00
Consequências... O Preto e Branco do Aeroporto do Huambo representa o passado recente.
Muitos de vocês já sabem. Voltei a Portugal, mas continuarei a actualizar o blog.
O Adeus em 18-06-2007
Obrigado José Lino, Emanuel Teixeira e Lisboa Correia pelo respeito, a amizade e lealdade demonstradas.
Muito Obrigado suplementar ao Senhor Lisboa Correia pelo Abraço comovido.

16 junho, 2007

Os meninos do Huambo gostam de estudar

Cerca das 18h00, quando o sol já se escondia, aconteceu o indesejável, um corte de energia da rede. Procedimento normal, dirigir-me ao gerador que fica na varanda das traseiras do apartamento.

Após ligar o gerador, reparei nos meus vizinhos que estavam lá fora a estudar

Como não têm a sorte de ter um gerador e como estavam a estudar dentro de casa, à falta de energia electrica vieram acabar de estudar para o terraço, aproveitando a pouquíssima luz natural que restava, que os olhos mal captavam, mas já a máquina fotográfica...




11 junho, 2007

Águas do Hemisfério Sul





Posted by Picasa
Para os mais entusiastas... ficam as desculpas pelo atraso da publicação deste post

6ª feira - Luana, 25 de Maio de 2007
Hoje é feriado, dia de Africa.
Aproveitei para ficar mais um dia em Luanda porque o programa era atractivo... Ida à praia, com boa companhia.
Bom, podia começar por descrever detalhadamente a viagem até à praia, mas não tem muito interesse a não ser o facto de termos saído de casa pelas 8h00, e chegarmos à praia cerca das 11h00. Por necessidade, desta vez, fomos por estradas secundárias, entenda-se... picadas. Foi diferente.
A determinada altura, uma pequena pausa na viagem, o meu regresso ao miradouro da lua, que é fácil de identificar nas fotos. Este local é quase paragem obrigatória, para quem vai de Luanda para sul pelo litoral e quer atravessar o rio kwanza, vale sempre a pena.
Depois de tirar umas fotos, e de “soltar” as pernas regressamos à estrada.
Antes de passar na ponte sobre o rio kwanza, a obrigatória paragem na portagem, onde vão passeando descontraidamente cabras e bodes... quadrúpedes claro, como podem constatar na foto em que ilustra um belíssimo exemplar da espécie.
Passada a portagem e ponte, temos mais umas dezenas de kms pela frente até à praia. Não sei o nome da praia, apenas que fica depois da minha já conhecida praia de Sangano, e um pouco depois de Cabo Ledo.
O dia, ainda está um pouco cinzento, mas pouco interessa, está calor, e aqui a cor do céu não tem relação parental com a temperatura.
Estamos a chegar, e ao entrarmos na picada vamos vendo lá em baixo, a praia, e à sua volta uma bonita paisagem, um pouco mais a frente tivemos que parar para tirar umas fotos, mas acreditem que aquela beleza não conseguiria ser copiada, por mais megapixels que houvessem. Depois, começou a lenta descida. Descer a estradita lunar que nos leva do encantador asfalto até à simpática areia da praia, digo lunar porque como podem imaginar esta estradita é formada por crateras. Desce-la não foi tarefa fácil, mas lá chegamos inteiros.
O Sol lá se decidiu a fazer-nos companhia, e por falar em companhia eu estava muito bem servido, o colega Mário, a Dulce e respectivas, encantadoras, divertidas, e doidas cadelas, a Kim e a Bauer.
Diga-se de passagem, que o inicio da semana não foi fácil para mim... ossos de oficio, mas agora estava a terminar naquele pequeno paraíso.
A Kim foi adoptada pela Dulce, e a Bauer veio de Portugal, portanto uma Angolana e uma Portuguesa. Foi interessante constatar que os bichos não tem preconceitos entre eles... digo entre eles, porque... já vão entender.
Durante a viagem até à praia, reparei no seguinte, Sempre que passávamos por pessoas de pele escura, a cadela ficava com os pelos do lombo eriçados e ladrava... muito irritada, ou diria antes, revoltada, mesmo depois na praia, teve a mesma atitude.
Curioso... Pensando um pouco, a cadela certamente que sofreu maus tratos por alguns senhores de pele mais escura, depois viu-se tratada no conforto e carinho que a Dulce lhe disponibilizou, que tem a pele mais clara, et voilá... o quadro ficou pintado.
Voltando à praia, é uma praia do meu número, isto é, serve-me na perfeição.
Areia limpa, algumas rochas, água límpida, pouco povoada, e quando se está sentado na areia tem-se a linda vista das águas verde esmeralda mesmo ali à frente, quando se está de molho, voltado para praia, tem-se a linda vista de serra verdejante, é de facto um local maravilhoso. Insisto, não sei o nome da praia, vou chamar-lhe formosa. Praia formosa.
A Kim e Bauer estavam também encantadas, e espalhavam a sua alegria em todos os grãos de areia. Estavam irrequietas, davam umas patadas na água, voltavam a terra, faziam-se de croquetes enrolando-se na areia, e reparem que até chegaram a atacar um humano que deu à costa (eu).
Confesso as minhas dificuldades em sair da água, pois esta estava com a quantidade de graus centigrados certa, e boa visibilidade. Alem da temperatura havia outra diferença que deveria ter sentido. Seria o facto destas águas serem mais salgadas. Bom, pelo sabor e ardor nos olhos não me pareceu. Mais salgadas porque? Porque há mais calor, logo mais evaporação, e menos chuva, logo menos adição de água doce.
Quanto às amigas quadrúpedes... essas corriam, corriam, corriam, nadavam, nadavam, nadavam e tinham sempre a gentileza de virem-se sacudir mesmo ao nosso lado, quando repousávamos nas toalhas... imaginem com tanto espaço para se sacudirem, mas não. Ali ao nosso lado era melhor.
As tantas a Bauer, já com pouco por inventar, começou a escavar de forma energética, ali junto dos meus pés, de quando em vez, parava... farejava como se tivesse detectado qualquer coisa.
Pode ser um cadáver... desde que tenha diamantes nos bolsos, o cenário não será tão mau, pensei eu.
Depois de umas horas, chega um casal amigo da Dulce, casal simpático e interessante... depois de umas boas conversas e apetitosas sandes e chamussas, o por do sol, o pano a cair sobre o palco, e que belo cenário deixamos para trás.
Seguiam-se algumas horas de viagem até Luanda, as cadelas dormiam, hesitamos algumas vezes no caminho de regresso, já que era a 1ª vez que o fazíamos em sentido oposto e os pontos de referencia à noite, mal se viam... mas felizmente para nós, escolhemos sempre bem.
No final, acabamos por jantar na casa da Dulce, um delicioso peru no forno com batatas assadas, acompanhados por bom vinho.
Obrigado Dulce, Obrigado Mário, Obrigado Kim e Obrigado Bauer, pela 6ª feira escape, que foi bem passada, acho que posso dizer... eu estava a precisar!

23 maio, 2007

Confiança


O que é bonito neste mundo, e anima,

É ver que na vindima

De cada sonho

Fica a cepa a sonhar outra aventura...

E que a doçura

Que se não prova

Se transfigura

Numa doçura

Muito mais pura

E muito mais nova...



Miguel Torga

27 abril, 2007

O Camba Rato

Estou há 1 semana em Luanda, em casa que pertence à empresa. Uma pequena moradia que fica num largo simpático, e como não podia deixar de ser, temos a companhia de um simpático roedor. É o Zeca.
Na passada 3ª feira, fizemos-lhe uma pequena perseguição, mas nada de especial... era só para lhe tirar umas fotos. Depois fomos jantar e nunca mais o vimos. Acho que o Zeca ficou amuado por não ter sido convidado para jantar.

Fiquei cheio de remorsos e como medida atenuadora, deixei-lhe um bilhetinho.

26 abril, 2007

José Afonso, o Farol


Há 6 meses, no post A chegada a Luanda, disse que "... estou em Africa, continente de outras maravilhas, outras barbaridades, mas sempre com o seu encanto muito próprio que em outros episódios tentarei explicar."

Aproveito a data de ontem, 25 de Abril, para usar as palavras de Zeca Afonso para descrever melhor o que sinto.

José, Faço das tuas as minhas palavras também, com licença...

"Sabia que tudo ia ser muito mais violento que tudo quanto tinha experimentado até aqui. Custou-me muitíssimo ir para África, mas hoje não estou nada arrependido".
"Fiquei terrivelmente ligado àquela realidade física que é a África, aquilo tem de facto qualquer coisa de estranho, uma força muito grande que nos seduz".


José Afonso, 1967

07 abril, 2007

O Parque e a Estátua



Mais uma visita ao parque do granja, cuja beleza não me cansa.
Bom local para ficarmos deitados na relva a ler um bom livro, dar uns mergulhos na humilde piscina, rir com os amigos, brincar com as crianças, etc...

No caminho de regresso à cidade acontece o indesejável. Furo num dos pneus. Aproveito para tirar umas fotos à estátua mais bonita e simbólica que conheço do Agostinho Neto.
A estátua mostra um Agostinho Neto sentado no chão, e debroçado sobre o seu caderno vai escrevendo as suas notas ou poemas, carregando às costas uma mochila e a espingarda AK.
Fica a questão... Qual a mais eficaz e justa das armas? A AK ou a caneta?








05 abril, 2007

um cheirinho... Que saudades da Vô Zita


Ao tentar adormecer ao som dos tiros ela meditava, e pensava que tinha passado mais um dia. Mais um dia com o constrangimento de regressar a casa e nunca saber se iria encontrar todos vivos e de saúde, e saber que cada encontro, cada olhar, cada beijo poderia ser o ultimo.
Ter que deitar-se com a angustia da guerra continuar pelo amanhecer, e a esperança da guerra acabar, tornava a sua cama cada vez mais pequena.
Por vezes a avô Zita aproximava-se lentamente, sempre denunciada pela sua enorme sombra na parede, tremida apenas pelas inconstâncias da chama da vela, e por aquele som característico de arrastar chinelos, sentava-se à beira do colchão, com as suas mãos duras e rugosas acariciava-lhe a cabeça, e como despedida dava-lhe um beijo na testa dizendo, Dorme bem minha filha. Ao fazer isto, a avô levava consigo a angustia, e a cama ficava mais confortável, mais espaçosa.
De seguida, Belita fechava os olhos e voltava a ouvir os toques dos chinelos, agora a afastarem-se, como uma musica e dança que estão terminando, o som baixando de volume a medida que dançarinos saem de palco. Ouvia agora o bater da porta. Vozita era a chefe da família, e a única que recusava-se peremptoriamente a dormir na casa dos vizinhos, só por oferecer mais segurança.
Dizia, Se tiver que morrer nesta guerra, vai ser na minha casa, então, todas as noites ela regressava sozinha ao seu palácio, sentava o seu enorme corpo no velho cadeirão, acendia o seu cigarro naquele silêncio e escuridão, onde só se via a luz vermelha do cigarro entre os dedos mulatos e grossos com unhas pintadas num vermelho vivo, como o seu sangue.
As lágrimas vertiam timidamente pelos olhos de Belita, cada vez que a Vozita saía sozinha de noite, pensava que podia ser a ultima vez que a tinha visto, mas Belita encorajava-se sempre quando pensava muito na avô, era como se fosse um imponente imbundeiro bem enraizado nesta terra, que teimava em ficar, quando todos fugiam. Teimava em viver a sua vida calmamente dentro daquela incompressível normalidade.
Lembrava-se agora do ritual de refugiarem-se nos bunkers improvisados em alguns quintais dos vizinhos, de passar pela avô naquele largo junto à casa, e vê-la sozinha, curvada com aquele rabo enorme para cima, e cabeça coberta com o lenço para baixo, arrancando vigorosamente à mão o impertinente capim, cuidando assim das suas culturas de abóbora, enquanto aqueles impertinentes camaradas do MPLA, passavam lá em cima nos seus mig´s, bombardeando indiscriminadamente a cidade, semeando a dor e destruição... diferentes culturas, pensava Belita, oxalá a avô arrancasse também desta terra aqueles impertinentes camaradas, aqueles e os da UNITA. Agora, depois de encorajada, mas ainda com resíduos das lágrimas, Belita sorria, estava a lembrar-se dos soldados da UNITA prenderem a Vozita.
Ò mãezinha já viu o que está a fazer? Tem a bandeira com a cabeça do mais velho (Savimbi) voltada para baixo!?!? Vamos ter que a prender.
Num bairro controlado pela UNITA, era a única família que preferia o MPLA, talvez também por serem todas mulatas e terem sofrido algumas perseguições da UNITA por não serem negras, valeu-lhes sempre terem uma familiar casada com um importante membro da UNITA, que fez com que tivessem escapado a muitas perseguições, e neste caso, valeu a libertação da Vozita.
A Vozita jurou ate aos seus últimos dias, que estava distraída quando içou a bandeira, mas dizia-o sempre rindo às gargalhadas e abanando a cabeça.

29 março, 2007

O Regresso

Regresso

Estou só,
entre o fim e o inicio,
sinto agora as mãos na face
Frias e secas,
Que lentamente vão abrindo como portões antigos,
permitindo que a claridade entre e ocupe o seu lugar,
neste reino abandonado.